Publicada em 20/06/2020

Covid-19: Doenças cardiovasculares, hipertensos e dexametasona na visão do cardiologosta Alex Mello

Especialista participou do "FaSaúde ao Vivo".

 

Qual o impacto da Covid-19 no coração? Quais os perigos de interromper os tratamentos em cardiopatas? Existe piora no quadro de pacientes Covid-19 que utilizam medicamentos para hipertensão? O médico cardiologista da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, Alex Mello, analisou estas questões e abordou a expectativa gerada pelo dexametasona, a nova aposta da comunidade científica para o tratamento de doentes graves. Mello participou da 4ª edição do FaSaúde ao Vivo, da Faculdade de Tecnologia em Saúde (FaSaúde), realizada no dia 17. A condução da atividade esteve a cargo do professor e doutor em epidemiologia Paulo Petry, coordenador de pós-graduação da FaSaúde/IAHCS.

 

Impacto da Covid-19 no coração

O cardiologista analisou que, durante uma epidemia ou surtos de infecções respiratórias virais, há um incremento de seis a sete vezes de atendimento de dor torácica e infarto. Entretanto, com a Covid-19, ocorreu o contrário: caiu o número de infartos. A espera em buscar ajuda tem um fator preponderante: o medo. Esperava-se que mesmo com a pandemia a procura nas emergências ao menos se manteria aos níveis tradicionais, mas "o que se viu foi um desaparecimento do paciente... Pode estar tendo muitas mortes súbitas em casa, sendo registradas como Covid. Mas não temos um número ainda [sobre o aumento de mortes], só teremos esses números mais adiante", disse Mello.

Sobre as manifestações cardiológicas em função da Covid-19, o médico alertou sobre os impactos ocasionados pela doença no coração. "É um vírus que chamamos de cardiotrópico. Ou seja, ele tem um apreço bem grande pelo coração. Ele interfere muito com todo o metabolismo e com a fisiopatologia das doenças cardíacas. Há diversas maneiras que o vírus atua dentro do coração: desde a instabilização de placa de colesterol, levando a um infarto, até a um ataque ao músculo do coração, que chamamos de miocardite", explicou.

Segundo Mello, logo no início do aparecimento dos casos, havia muita dificuldade em entender quem estava sofrendo de miocardite ou se a dor no peito ou outros sintomas cardiológicos eram na verdade em decorrência das manifestações da Covid. Mais tarde, segundo Mello, foi se verificando que era decurso da ativação do vírus que desencadeia a "tempestade covídica". "É um qudro bem traiçoeiro em emergência", disse, principalmente naqueles pacientes mais graves.

 

Manter os tratamentos e as medicações

Mello destacou que é fundamental que pessoas com doenças cardiológicas sigam utilizando os medicamentos e mantenham suas condições controladas, ou seja, os tratamentos com orientação médica. Ele observa que, nos Estados Unidos, dados apontam que 10% dos pacientes hipertensos pararam ou diminuíram com o consumo dos medicamentos durante a pandemia - o cardiologista teme que o número possa ser ainda maior no Brasil.

Mello enfatiza que, quanto mais o paciente com doenças cardiovasculares estiver seguindo com seus medicamentos, menores serão as chances de complicações com o coronavírus. Dentre as doenças pré-existentes em pacientes graves, as doenças cardíacas aparecem como as que mais matam, seguido da diabetes e doenças pulmonares.

 

Medicamentos anti hipertensivos agravam o quadro da Covid-19?

Paulo Petry questionou ao cardiologista sobre uma observação inicial feita no início da pandemia, sobre a suspeita de que alguns medicamentos para hipertensão poderiam agravar o quadro da Covid-19. "Este foi o maior número de questionamentos que tive, vindos dos meus pacientes, neste período de pandemia", respondeu Mello. O cardiologista salientou que o receio ocorreu em grande escala no início da pandemia, pelo fato de a medicina estar lidando com uma doença desconhecida. Mas que atualmente, há uma linha de pesquisa que indica que o medicamento poderia até ajudar os pacientes com Covid-19.

"Havia o receio de efeito adverso de alguma medicação. Como a Covid usa para entrar dentro da céluca pulmonar, a enzima conversora da angiotensina 2 (ACE2), e como alguns tipo de anti hipertensivos agem sobre essa enzima, acreditou-se que essas medicações poderiam estar fornecendo mais chaves ao vírus, abrindo as portas para o coronavírus entrar no pulmão. Isto movimentou toda a sociedade de cardiologia no mundo todo. Entretanto, logo que começaram a aventar essa hipótese, isso foi avaliado e colocado por terra", detalhou.

A conclusão sobre o efeito desses medicamentos pode ser justamente o contrário: os efeitos podem ser positivos ao invés de negativos no combate ao coronavírus (entretanto, ainda não há conclusão sedimentada sobre esses efeitos). De acordo com Mello, hoje já é estudado se o medicamento não bloquearia essa enzima, diminuindo as ações do vírus no pulmão. "Se isso for comprovado [pelos estudos que estão em andamento], até mesmo pessoas sem cardiopatia poderiam se beneficiar com um medicamento. O jogo virou, digamos assim", disse.

 

Dexametasona: "Talvez a notícia mais emocionante desde o início da pandemia"

O cardiologia avaliou com otimismo a descoberta recente da eficácia da dexametasona para pacientes graves da Covid-19, feita por pesquisadores da Univerdidade de Oxford.

"Talvez seja a noticia mais emocionante desde o início da pandemia. É uma medicação extremamente barata, bem conhecida e de uso rotineiro no meio médico, de fácil administração e controle de efeito colateral, e de aplicabilidade imediata, porque não precisamos importar, qualquer canto do mundo tem o medicamento. Muitas vidas vão ser salvas por uma medicação de fácil acesso", disse. A medicação já pode ser utilizada de imediato, mesmo que seja uma pré-publicação, afirma Mello.

Mello também apontou que, com mais estudos, o uso de plasma sanguíneo poderá se concretizar como mais um aliado no combate ao coronavírus, e também ressaltou que está otimista com os avanços das vacinas que estão sendo desenvolvidas.

 

Impacto emocional em profissionais da saúde

Mello disse que se sente na sua instituição (Hospital São Franscico da Santa Casa), mas ressaltou que há tensão no dia-a-dia, como em todo hospital atualmente.

"Estamos lidando com um inimigo oculto, sem muita certeza de como ele age, com algumas questões ainda inexplicáveis. Há essa tensão no dia-a-dia, mesmo com toda a proteção, ainda há tensão por estar no hospital, ainda que o São Francisco não tenha atendimento de emergência. Imagino que em outros setores de emergência, a coisa seja mais tensa. O emocional está abalado ainda", detalhou.

 

Exercício físico como aliado

Para o cardiologista, a prática de exercícios físicos é o principal aliado psicológico e físico para as pessoas se "tratarem" durante a pandemia. Ele detalha que é importante realizar exercícios leves a moderados por 30 a 40 minutos, e que a prática é uma boa aliada para manter o bom nível de imunidade. "Exercício é a minha principal recomendação de atividade no momento", disse.

Mello salienta que, em momento de pandemia, devem ser reforçados alguns cuidados: ao sair às ruas, realizar exercícios sempre com máscara e mantendo distaciamento social. Ele ressalta que é preferível abrir mão de práticas em lugares compartilhados por muitas pessoas, como a natação em piscinas que não sejam de uso familiar ou individual.

 

Próxima live

A próxima edição terá como convidado o superintendente executivo do HCor, de São Paulo, Fernando Torelly, que debaterá sobre os Aprendizados e Desafios no Enfrentamento da Pandemia. O evento ocorre no dia 24 de junho, quarta-feira, às 19h, novamente pelo Instagram do professor Paulo Petry (@prof_paulo_petry).

Os debates têm o apoio da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (FEHOSUL), Associação dos Hospitais do RS (AHRGS), Instituto de Acreditação Hospitalar e Ciências da Saúde (IAHCS Acreditação), Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (Sindihospa) e Portal Setor Saúde.